Trocando a numeração
Eu me tornei uma gorda. E vi tudo acontecer – dos 60 aos 76 quilos, em um período de seis anos. Os dez últimos em apenas oito meses, após uma sequência de desilusões. Assisti o desenrolar de todas as fases que a gente identifica nos depoimentos postados nos blogs e também as respostas para as perguntas de inúmeras gordinhas que ainda não se conscientizaram de que foram as vilãs da própria história. Eu presenciei a minha. Ou melhor, eu escrevi a minha. Houve momentos em que desejei ficar gorda, horrível, indesejável para o mundo todo ver o quanto de mal me havia feito. Reconhecia cada desejo insano meu. Assim como reconhecia todos meus furores internos: as raivas contidas, as mágoas não curadas, os desejos não realizados e os sonhos deixados de sonhar. Achava culpados para meus dissabores, usava personagens reais para concretizar minha vontade de despejar meus ódios, que jorravam aos borbotões, inclusive por mim própria e pelo que tinha me tornado.
Os jeans subiram do 40 para o 44, as blusas viraram G, as meia-calças, GGs e a frustração, EXG. As feições do rosto não mais refletiam a mesma pessoa - eram grotescas, disformes, edemáticas. As curvas antes sinuosas se tornaram pesadas e agora apenas exalavam nuances do que foram.
A tristeza e o desalento me engordavam muito mais que as refeições desequilibradas. Ou passava dias sem comer, ou comia o equivalente a dias em uma única refeição.
Após horas de choro descontrolado, eu me buscava no escuro dos meus porões. Não encontrava mais aquela mulher meiga, companheira, receptiva, sonhadora e otimista. A teriam realmente matado? Para no momento seguinte descobrir que eu estava bem ali, com nova roupagem. Ainda cheia de dúvidas e interrogações, com os medos cerceando as iniciativas diferentes que haveria de tomar. Mas no fundo sabia (e ansiava) que teria que adotar uma forma diferente de ver o mundo. Só não sabia como. E com a mesma neblina que me ofuscava o caminho, vinha a insatisfação que me abria o apetite e o choro.
Atuara como terapeuta quase uma vida e diariamente presenciava em consultório as mesmas questões que agora vivia. Sentia na própria carne o que antes sentira nos outros. Não era mais ilusão, estava vivenciando uma grande crise - de identidade, depressão e de resgate de traumas da infância. A sensação de ter ficado fora do ninho retornava avassaladora e ditava as regras nos relacionamentos, pintando traços de rejeição e descaso nas atitudes alheias, especialmente dos íntimos. A criança interior gritava e pedia aconchego e carinho. A sensação de frio de estar do lado de fora do ninho me chegava aos ossos e ao coração, aumentando assustadoramente a fragilidade.
O QUE MAIS
O processo de engorda começou na fase terminal de um casamento de 21 anos. Que, ao acabar, trouxe de volta a vida e a beleza perdidas. Foram 14 quilos diluídos na sentença final de um processo judicial que se arrastou por mais de ano. Podia ver, a cada novo dia, a energia da renovação fluir e o resgate do meu eu interior. Floresci. Fiquei mais bonita e interessante aos 44 anos do que aos dezoito. Da rotina engessada de casa-trabalho, trabalho-casa, baixei a guarda e comecei a vislumbrar o horizonte. Aos poucos fui me integrando ao mundo novamente e, com a ajuda dos meus filhos – companheiros inseparáveis de jornada -, fui muito feliz. Retomei um namoro da juventude, amei, fui amada, sonhei, fiz loucuras, sofri, sorri e... como ocorre em todos os grandes amores da juventude, este um belo dia, também acabou. Percebi que o príncipe do passado (provável fruto dos meus sonhos), amadurecera e se transformara em um reles sapo.
A segunda vez que amei foi mais fácil. A vontade ajudou o acaso, mas fantasiei de novo e, em menos de dois anos, desmascarei mais um. Me sentia uma pistoleira – No bom sentido – dando fim a bandidos mascarados de bonzinhos. Enfim, vai saber... Para mim não serviam. Um era um incorrigível galinha de carteirinha e o outro, um inveterado punheteiro de internet.
Pulei dos oito aos 80 e aos oito voltei. Voltas demais para um pequeno espaço de tempo. E os quilos de gordura e inércia também voltaram implacavelmente ao meu corpo. Não na mesma proporção de antes, mas ameaçadores, mostrando que qualquer deslize abriria uma brecha para se instalarem de vez na minha silhueta.