O novo ninho da nova águia
Aos poucos me peguei rindo sozinha pela rua, como no passado. Os quilos em excesso foram sumindo aos poucos, naturalmente. As músicas harmoniosas, inspiradoras, relaxantes e/ou energizantes voltaram a ecoar pelas paredes do novo ninho. Nunca me orgulhei tanto de mim, dos meus novos feitos a cada dia. Descobri que posso tudo. Tudo que realmente quiser....
O AMOR AOS 50
Será que ninguém é capaz de amar uma mulher de 50 anos? Ou melhor – reformulando a pergunta: será que os homens (ou elas próprias) nessa faixa etária já não mais acreditam no amor? Ou será que o amor não faz parte dos dias atuais, como as máquinas de escrever e os long-plays? Só sei que depois de muito tentar e me entregar e sofrer e retirar novamente os espinhos e apaixonar outra vez, conclui dolorosamente: aos 50 o amor passa a ser regido por regras materiais. Nessa fase da vida a capacidade de sonhar se esvaiu, a desesperança tomou conta e as necessidades materiais passam a ditar as regras. Só que ainda não assimilei essa nova performance (e nem pretendo) e fico como um animal jurássico boiando em mares outrora navegados. Se confessar a alguém mais jovem, sou taxada de piegas, brega mesmo. Se confidenciar a alguém mais velho, acabo ouvindo conselhos do tipo: “chega de lavar cuecas”, vai curtir a vida, ficar é melhor.
Nesse vai e vem entre épocas, me perco em devaneios e questiono meu jeito romântico de ser, a habilidade de crer nas pessoas e em especial, nos sentimentos que as unem. Quando criança, os contos de fada me falaram que o amor tudo pode, torna o homem invencível e os enamorados, felizes para sempre. E os príncipes atravessavam vales e escalavam montanhas em busca da rosa azul que garantiria a mão da princesa amada. E depois, não havia divórcios nem brigas – a corte os recebia e emoldurava a linda história de amor. Concordo que os tempos mudaram e a tal da emancipação feminino tirou das Penélopes modernas a capacidade de esperar o amado tricotando e desmanchando, mas não inventaram nada parecido ao menos prá substituir? Está tudo muito momentâneo, casual e passageiro, mas eu ainda acredito no amor e não abro mão de viver um dos grandes ainda nesta encarnação.
QUE IMAGEM VOCÊ PASSA?
Já tiveram a impressão de que estão assustando as pessoas? Eu já tive e confesso, estava com a melhor das intenções. Acredito que já tenha acontecido com mais gente e se deva à inobservância do que transmitimos de fato. Ficamos tão mergulhados em nossas próprias impressões que esperamos e queremos piamente crer que o outro nos leia como somos. Mas nosso código de barras é próprio e ilegível para quem não acessa o mesmo nível (e não estou falando culturalmente) e sim um estágio atual. Ontem minha amiga Sandra me encontrou na rua e comentou: “te vi de longe e pensei: quem será com aquela imponência toda?” Ela foi embora e segui pensando no que dissera. Estava voltando de um dia na redação, problemas de toda ordem e sem perspectiva de programa para o final de semana – como poderia estar transmitindo uma imagem de imponência? Ou isso era meu, estava impregnado na minha essência?
FINALMENTE SEM DONO
A libertação começa a sair do plano etéreo e se materializar. Num belo domingo de maio, já mais para o final do mês, os ares de outono me fizeram ter uma consciência mais ampla da situação. Conclui que na verdade não quero um homem para – em nome de um amor – me sustentar e ao mesmo tempo se dar ao direito de me exigir posturas. Conclui que prefiro ter recursos para me sustentar sozinha e viver segundo minhas próprias filosofias e regras. Os homens e suas ideias de colecionar amigas e diversificar, as mulheres e sua dependência patológica estavam me enjoando. Hora de cair fora deste círculo vicioso. A primeira atitude foi trocar a foto da tela de descanso do micro – tirei a imagem que encenava a personagem acompanhada e coloquei uma que retratava exatamente quem eu sou – livre, leve e solta. O próximo passo foi criar novas alternativas e buscar recursos para a libertação.
Em pleno 2011 ainda usamos de uma forma ou outra as algemas de nossas bisavós. Não são mais visíveis, mas interiores. “Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, acorda.” Essa frase, de autor ignorado, me despertou. Entristeço ao ver minhas companheiras de jornada tão presas. Eu entristeço com a constatação e elas me temem e se afastam por eu pensar diferente.